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“O Silencio e de ouro, mas nao neste Mundo”

Fui silenciada toda a minha vida e a recompensa que recebi foi a doenca Bipolar e Disturbio de Personalidade.
Eu decidi nao reprimir mais os meus sentimentos e falar.
E foi o que fiz quando um estranho me disse que eu tinha que usar menos roupa na piscina, aquando das minhas ferias com os meus filhos no Algarve.

Se este incidente tivesse acontecido antes de eu ter decidido falar atraves do meu livro, provavelmente, como a maioria das pessoas, eu nao teria feito nada e viveria com a humilhacao, deixando passar em branco toda esta situacao.
Mas eu decidi nao o fazer.
Eu decidi falar sobre o que me aconteceu, porque encontrei coragem para o fazer.
Contudo, desde que a noticia foi publicada no Daily Mirror, eu tenho sido sujeita a varias ameacas de morte e ataques racistas.
Eu nao estive silenciosa ate agora por estar errada. Eu estive simplesmente a organizar as minhas ideias, para que nao sofra mais em silencio.

Como Ser Humano e acima de tudo Mulher e Mae, eu condeno o que aconteceu no dia 21 de Julho de 2017. Um senhor Portugues abordou me e a minha familia, insistindo para que abandonasse mos a piscina, em virtude de nao estarmos a usar fatos de banho apropriados e porque os residentes fizeram queixa. A minha cunhada estava a ensinar as criancas a nadar e eu estava a brincar com os mais pequenos, nao pensando sequer que estava a quebrar alguma regra cultural. A forma como fomos abordadas, foi desumana. Fomos obrigadas a sair da piscina e mostrar o que tinhamos vestido, alegando que ele so estava a defender a sua cultura. Humilhante, no minimo! Esse senhor definiu a minha religiao e cultura unicamente pela cor da minha pele. Quando insistimos que estavamos a usar roupa que era especificamente para ser usada em piscinas, ele disse nos que so podiamos usar calcoes ou bikini. E eu pergunto: desde quando se tornou apropriado ou socialmente aceite/correcto que um homem aborde duas mulheres na presenca da sua familia e criancas e lhes digam que estao a usar demasiada roupa? Quando?

Mas o momento mais intimidatorio foi quando ele disse a minha filha de 9 anos de idade para sair da piscina e mostrar a todos os presentes o que trazia vestido, tal como fez comigo, para poder inspeccionar os nossos fatos de banho. E porque teve a minha filha que se sujeitar a essa humilhacao em termos de comparacao do que realmente e a Cultura Portuguesa?! A minha filha estava a usar um fato de banho e eu estava a usar leggings e top apropriados para piscina. O Sr. entao disse: ‘ Voce nao pode usar essas roupas. Tem que usar um bikini”! Fiquei muito chocada e respondi lhe: “O Sr. esta a ser rude. Como pode o Sr. dizer a uma mulher que ela tem que usar um bikini para poder permanecer na piscina e onde estao as regras deste local afixadas!?” Ele continuou dizendo: “ So voce e que tem problemas em relacao ao bikini e isto e a nossa Cultura”. Ao que lhe respondi: “Mas a que Cultura esta o Sr. a referir se? Eu sou Inglesa e fui criada la toda a minha vida”!
Nao esta relacionado com Cultura ou com Religiao. E uma questao de auto estima, de confianca e em como nao nos sentimos confortaveis usando um bikini.
E eu tenho a certeza que ha muitas Mulheres que se identificam comigo. Por acaso sou Muculmana e pratico a minha fe, porque me sinto bem em faze lo. As referencias culturais e racismo do Sr. foram o que me chocaram mais. Porque que a cor da minha pele e a minha relutancia em mostrar mais pele me fazem pertencer imediatamente a uma Religiao?
E mesmo que fosse por motivos religiosos, porque se torna aceitavel que o sr nos tenha abordado daquela forma?
Eu nao tenho e nao tive qualquer problema com ninguem naquela piscina, fosse por estarem a usar mais ou menos roupa, e porque que fomos tratadas daquela forma?
Porque que e considerado correcto?
Eu nao entendo onde usar um bikini e considerado Cultura Portuguesa. Os bikinis sao usados em todo o Mundo para nadar e para ir a praia, por pessoas que se sentem bem com os seus corpos e desde quando esse facto se tornou Cultura Nacional?
Concerteza, que cada pais tem as suas leis, cada pais tem a sua cultura. Se alguem quebra as regras, consciente ou inconscientemente, nao e reprovavel corrigir a pessoa de forma respeitavel. Eu acredito que todas a pessoas merecem ser respeitadas, tal como nos mereciamos ter sido, numas ferias com os nossos filhos, para as quais trabalhamos muito.

Quanto aos comentarios negativos, relacionados com este incidente, eu nao os condeno, porque os nossos estados de espirito e as nossas opinioes sao diferentes, como e obvio. Nos somos todos diferentes mas tambem somos iguais.

Em relacao a um comentario que uma Senhora publicou na minha pagina, eu tenho a dizer, como Mulher que somos, que estou muito surpresa e chocada com a incapacidade de nos entendermos. O “Burkini” ao qual fez referencia, nao e uma peca de roupa imunda ou anti-higienica. O Burkini e feito especial e especificamente para ser usado em piscinas ou na praia. O que faz o Bikini ser mais higienico que o Burkini, pergunto eu?! E fico triste que me tenha dito para nunca mais voltar ao Algarve, palavras vindas de uma pessoa que reside em Albufeira e que vive do turismo.

Para aqueles que me acusam de estar a mentir com o unico intuito de ter ferias gratuitas ou algum tipo de indemnizacao, se esse fosse o caso, eu nao estaria a proteger o nome do complexo turistico e a empresa que usamos para reservarmos as nossas ferias. E mais, tenho recebido varias propostas para vender a minha historia para a imprensa, as quais eu recusei. Contudo, isso nao os impediu, sem minha autorizacao, de publicarem noticias em todos os paises. E algumas noticias posso afirmar que sao falsas e erroneas.. Tudo isto nao foi e nunca sera por causa de dinheiro. Eu nunca recebi nenhuma indemnizacao e nao fiz qualquer tipo de queixa sobre o sucedido. Eu simplesmente quero dar voz sobre a forma inaceitavel como fomos tratadas.

Vou agora referir me ao que o Sr. Eliderico Viegas, Presidente da Associacao de Hoteis do Algarve, disse: “Os ingleses são useiros e vezeiros em apresentar queixas para obter indemnizações” / “O lógico teria sido terem apresentado queixa e quererem apontar o nome da unidade onde isso aconteceu”.

Dado que o Sr. Eliderico Viegas nao tem em sua posse qualquer tipo de informacao e detalhes sobre onde o incidente ocorreu, como pode ele especular que tudo foi orquestrado para obter indemnizacoes? Como pode ele generalizar todos Ingleses e ate banalizar este assunto, comparando o com situacoes de intoxicacoes alimentares, em busca de indemnizacoes?! O Sr. Viegas ao declarar tais afirmacoes, esta a rotular pessoas baseando se num pais de origem. Podera o Sr. Viegas dizer nos em termos de comparacao quantos casos de indemnizacoes existiram de facto e quantas queixas foram efectuadas por turistas Ingleses, para poder afirmar tais palavras? Nem todos os Ingleses agem da mesma maneira durante as suas ferias em Portugal e nem todos os que buscam esse tipo de indemnizacoes sao necessariamente Ingleses. Nos nao nos queixamos para obter seja o que for a titulo monetario, visto que nao tem rigorosamente nada a ver com dinheiro e espero sinceramente que tenha ficado claro.

O Sr. Viegas, enquanto representante da Associacao de Hoteis do Algarve, afirmando que ao nao fazermos queixa na Policia ou uma queixa directamente para esta Entidade, faz com que o sucedido nao tenha acontecido ou esteja a ser empolgado, e no minimo absurdo.
Em primeiro lugar, apesar do pessimo tratamento dado por aquela pessoa a toda a nossa familia de 10 pessoas (adultos e um bebe de apenas 8 meses de idade), o Sr. em causa, ate ver, nao nos pareceu estar a cometer um crime, e como tal, honestamente nao nos ocorreu ir a policia fazer uma queixa formal. Nao fizemos uma queixa directamente a Associacao de Hoteis do Algarve, porque nos nao estivemos hospedados num Hotel, por isso o argumento feito pelo Sr. Viegas, deixa de ter qualquer sentido. O que fizemos na altura, foi o mais logico para todos: falamos com a pessoa que nos arrendou o apartamento. Informamos o gerente sobre o sucedido e e ele deslocou se ao local onde estavamos hospedados. Foi extremamente compreensivo e ofereceu se de imediato para ir connosco a piscina no dia seguinte com o intuito de falar com o pessoal responsavel do condominio. O gerente lidou com toda esta situacao de uma forma tao eficiente e respeitavel, que nos sentimos humildes e honrados por haver quem nos compreenda e nos assegurou que isto nao e de todo a real “Cultura Portuguesa”.
Contudo, nos decidimos nao voltar a usar a piscina em virtude da humilhacao que sofremos e nao quisemos que as nossas criancas tivessem que assistir a mais uma triste situacao. As ferias que planeamos durante meses, brincar na piscina… As criancas tinham que ser protegidas e foi assim que procedemos.

O gerente dos apartamentos tem falado comigo e oferecido todo o seu apoio, desde que surgiram artigos na imprensa. Ele inclusivamente enviou me uma fotografia de pessoas na piscina, no dia 1 de Agosto, em que estao a usar calcoes e tshirts. Quanta hipocrisia! Quando estivemos na piscina, com os nossos filhos e a usar fatos de banho apropriados, disseram nos que nao podiamos e aqui, como podem ver, esta um homem de uma “cultura” diferente, a utilizar de forma inapropriada a piscina: vestido com uma tshirt e calcoes! E ninguem o abordou, ninguem fez queixa dele, ninguem o obrigou a usar bikini apropriado para homens. Porque que nao se queixaram?!

Estou muito desiludida com a imprensa e aborrecida com o facto de estarem a usar fotos minhas e da minha familia, tirades das nossas paginas de facebook. Gostava de saber qual a relevancia dessas fotos para a nossa historia?! Porque e aceitavel exibir e invadir a nossa vida privada, expondo nos como se fossemos criminosos?!
Eu sofro de uma doenca mental que me levou varios anos a compreender e a aceitar. Encontrei uma forma de dar voz aos meus problemas atraves do meu livro. Escrevi sobre a problematica da Saude Mental, onde falo sobre varios assuntos relacionados com a Bipolar de forma a poder ajudar outros a aceitar o diagnostico.
Tenho sido caracterizada na imprensa como sendo mentirosa e gananciosa. Isso deixa me de rastos. Eu nao sou essa pessoa e nunca fui. Eu falei sobre o sucedido, porque, tal como referi, eu encontrei a minha voz atraves do meu livro. Libertei me dos medos e dos estigmas e nao quero sentir me silenciada nunca mais. Nao quero viver a minha vida arrependida por nao ter falado sobre os direitos das Mulheres e como somos tratadas muitas vezes, de forma inferior.
Eu tenho estado a receber muito odio e ameacas de morte. Tudo porque falei sobre uma situacao horrivel que aconteceu comigo e com a minha familia. Qualquer pessoa que sofra da mesma doenca, sabera o quao dificil e nao ter medo de falar, quando o caminho mais facil sera deixar que as palavras fiquem prisioneiras dentro de nos, sendo que mais tarde nos irao consumir.

Honestamente, eu quero que todos saibam que considero a Cultura Portuguesa rica. Ha pessoas respeitadoras, carinhosas, humanas. Nao tivemos qualquer outro tipo de problemas com o apartamento. Tanto o complexo turistico como o apartamento eram fantasticos. Eu reagiria da mesma forma, em qualquer parte do Mundo. O problema foi a forma como fomos tratadas: nao foi justo, nao foi humano, nao foi respeitavel.

O Sr. Ivan Molina da Fito Store em Albuferia, desde o dia do incidente, que tem demonstrado todo o seu apoio para comigo e para com a minha familia.

Deixo aqui um poema, escrito por mim, sobre o acontecimento em Portugal:

Believe - A Poem by Maryya Dean

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